Esse é o mal de muita gente... querer ser o que não é... se preocupar demais com regras infundadas, etiquetas que não dizem nada, valores fúteis conversas banais...
Essas sim, são as que fazem o papel mais ridículo dessa peça chamada vida... o papel de "nada"... e o que seria o "nada"???
Pra mim se resume a ausência de qualquer coisa boa que se possa ter no seu íntimo... pessoas que não têm nada a oferecer, não podem evoluir nessa crostra terrestre... o caminho será longo pra essas pessoas... árduo... talvez se percam até se encontrar ... não é fácil caminhar pela estrada dos tijolos amarelos... só quem tem dentro de si um espírito iluminado é que consegue tal façanha... faça o bem, pense o bem, plante o bem... não faça fofocas... não deseje o mal, não cobice o que não lhe pertence ( sonhar sim... cobiçar não...) e o principal: pratique a caridade moral... é a melhor forma de ser feliz aqui ou em qualquer lugar que estivermos...
Deixo aqui o texto de Pessoa que inspirou tal desabafo hoje...
Observador contumaz das manias humanas, Roberto Shinyashiki está cansado dos jogos de aparência que tomaram conta das corporações e das famílias. Farto de semideuses, Roberto Shinyashiki faz soar seu alerta por uma mudança de atitude: "O mundo precisa de pessoas mais simples e verdadeiras."
POEMA EM LINHA RETA
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irresponsavelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
- Fernando Pessoa